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Sapiranga, 18 de novembro de 2017
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A História de Sapiranga
OS PRIMEIROS HABITANTES
A área que atualmente correspondente ao município de Sapiranga era, inicialmente, ocupada por índios Kaingangues e Guaranis, que viviam pela encosta e juntos aos rios e arroios. A ocupação portuguesa ocorreu no século 18, mas o primeiro proprietário, segundo o registro de sesmarias (1816-1820), foi Innocencio Alves Pedroso, que vendeu suas terras a João Ferreira da Silva, que, por sua vez, negociou elas com Manoel José Leão. Nesta época a região chamava-se Padre Eterno e pertencia à freguesia da Aldeia dos Anjos, onde Manoel José Leão instalou sua propriedade conhecida como Fazenda Leão (Leonerhof).

A COLONIZAÇÃO ALEMÃ
No período de 1824 a 1826, os primeiros alemães estabeleceram-se no Rio Grande do Sul. Estes imigrantes germânicos desembarcaram em São Leopoldo no dia 25 de julho de 1824 (data hoje festiva em nossa região), iniciando a história dos municípios que formam a região conhecida como Vale dos Sinos. Esses imigrantes receberam lotes de terras, onde deram início à sua habitação. Segundo a historiadora e professora Dóris Fernandes Magalhães, a Fazenda Padre Eterno, após discussões jurídicas, foi levada à leilão pela Justiça e arrematada em praça pública por João Pedro Schmidt, comerciante do Hamburgerberg, em julho de 1842. Essa venda marca o início, de fato, da colonização alemã nas terras que hoje formam o município de Sapiranga. O comerciante cria a sociedade com seu vizinho João Kraemer, e, através da Sociedade Schmidt & Kraemer, são loteadas as áreas da Fazenda Padre Eterno para colonos, que se organizam em pequenas propriedades policultoras, usando mão-de-obra familiar. Os primeiros colonos a comprarem terras (chamadas de prazos coloniais) foram João Hofmeister e Henrique Pedro Müller, em 1845, em lotes vendidos próximos da encosta do Morro Ferrabraz.
Os colonos vindos do Hunsrück instalados vão se dedicar à atividade agrícola de subsistência, bem como ao artesanato, ferraria, marcenaria, carpintaria, selaria e tamancaria, trabalhos que haviam trazido da Europa e graças a qual puderam suprir suas necessidades nas novas colônias. Nos primeiros anos era comum encontrar os colonos dedicando-se, simultaneamente, a alguma atividade artesanal e outra agrícola. Aos poucos, o artesanato se amplia para pequenas manufaturas onde, como na lavoura, a mão-de-obra básica era a familiar. Mas o advento da manufatura não iria eliminar o artesanato, de modo que, por muito tempo, ambas as atividades iriam coexistir.
Em 1850, começou o povoamento efetivo do solo sapiranguense, com o estabelecimento dos primeiros colonos. Em 1.º de julho desse ano havia em Sapiranga e seus arredores 398 habitantes, a maioria deles (265), evangélicos. Assim, em 9 de fevereiro de 1851, o pastor Doutor Roch inaugura a primeira igreja, sendo que até então os cultos eram celebrados em residências particulares  - em 1880 seria construída a casa paroquial e também a Escola Duque de Caxias. Em 1890 é adquirido o primeiro sino para a igreja.

A BATALHA DOS MUCKER
O desenvolvimento da colônia alemã teve um episódio violento na segunda metade do século 19, a chamada batalha (ou revolta) dos Mucker, um conflito religioso e social entre os colonos no Morro Ferrabraz, que se arrastou de 1868 a 1874.
Os protagonistas desta saga foram Jacobina Mentz e João Jorge Maurer, que se conheceram em São Leopoldo, na metade do século 19, casaram-se em 1866 e, saindo de Hamburgo Velho,  se estabeleceram nas terras da encosta do Morro Ferrabraz (teriam tido seis filhos). Curiosamente, os pais de Jacobina teriam deixado a Alemanha devido ao rompimento da família com a igreja luterana e a criação de uma seita em uma pequena comunidade germânica, Tambach-Dietharz, na região central do país. A história se repetiu no Vale do Sinos. Jacobina sofria de ataques epiléticos, desde criança, o que fazia com que ela fosse vista como uma pessoa de natureza diferenciada. Quando ela adoeceu, o curandeiro Ludwig Buchorn a tratou e ensinou o marido dela (que era carpinteiro) sobre as ervas e como elas podiam ser usadas para a cura de enfermidades. Como naquela época os médicos eram escassos, as pessoas comumente apelavam a curandeiros. Enquanto Maurer utilizava seus conhecimentos com chás e ervas, Jacobina usava a religião no atendimento espiritual aos doentes, citando passagens bíblicas com algumas interpretações livres. Tornou-se famosa por suas pregações e os tratamentos e rituais de cura passaram a ser vistos como miraculosos, em meio a momentos de epilepsia vistos como transes.
Assim, criou-se uma legião de seguidores (muitos até fanáticos) de Jacobina, e isso atraiu a ira de muitos outros habitantes que a viam como uma inimiga da igreja e acusavam de falsa curandeira. Surgiu então na colônia a definição Mucker para os seguidores de Jacobina, uma pejorativa palavra alemã que pode ser traduzida como falso, desonesto ou encrenqueiros no plural. Mal vistos pela sociedade estabelecida (parte de origem católica, parte de origem protestante), os Mucker eram acusados de vários ataques na região pelas comunidades contrárias a eles. Com as acusações, ataques, embargos e a opressão, eclodiu o ódio no Morro Ferrabraz. Em maio de 1873, Jacobina e seu marido chegam a ser presos em São Leopoldo. Ela chega a ser, inclusive, internada para exames clínicos em Porto Alegre, mas é liberada no mês seguinte, sem resultados conclusivos.
Os conflitos seguem até que em junho de 1874 se iniciou, então, uma sequência mais violenta e sangrenta de ataques, que ficou conhecida como A Batalha dos Mucker. Casas comerciais e residenciais foram incendiadas, resultando em mortes de crianças e adultos. Vieram abaixo-assinado, acusações, pressões na Justiça e no governo estadual. A chegada das tropas de infantaria comandadas pelo coronel Genuíno Sampaio acentuam o prenúncio da ofensiva derradeira. Na sua primeira ofensiva, em 28 de junho, perde muitos soldados (seriam 39 mortos) e os Mucker saem com menos baixas (apenas seis mortes). Mas em 18 de julho vem o primeiro massacre, com 16 seguidores de Jacobina mortos - ela escapa e se refugia no Ferrabraz com alguns de seus fiéis. Nesta ataque Sampaio é alvejado e morre um dia após o ataque devido a uma hemorragia.
Arma-se, então, o combate final de tropas do Exército e da Guarda Nacional contra os Mucker, que ocorreu em 2 de agosto de 1874. Um seguidor da seita (Carlos Luppa) teria levado às tropas até onde se escondia Jacobina. Ela e seus seguidores foram massacrados. Os poucos que sobreviveram foram presos e condenados. E, segundo relatos, mesmo depois de soltos os seguidores de Jacobina foram perseguidos na região e até pelo Estado afora, inclusive ocorrendo novas mortes. Outros seguidores da seita, que haviam fugido antes do masacre, também sofreram perseguição.
A história já foi contada e recontada, ganhando novas versões, a maioria trazendo uma nova visão sobre Jacobina, que de líder fanática de uma seita passou a ser vista como líder defensora de uma minoria ameaçada pela intolerância da sociedade na época. 
Polêmicas e versões à parte, em 2009, um Memorial da Reconciliação foi erguido em Sapiranga, ao pé do Morro Ferrabraz (junto à uma estátua em homenagem ao Coronel Genuíno Sampaio), selando simbolicamente a paz entre descendentes dos dois lados do conflito. 

A FERROVIA E O NOME DA CIDADE
A partir de 1890, Sapiranga deixa de ser parte do 4.º Distrito de São Leopoldo para ser vila e sede do 5.º distrito, pelo Ato Intendencial n.º 154. Em 1899, iniciou-se a construção da Ferrovia Novo Hamburgo-Taquara, inaugurada em 1903, ampliando o transporte que até então era feito por lanchões, barcos, cavalos, mulas e carretas.
Com a ferrovia, Sapiranga recebeu um novo impulso e, ao longo da estrada de ferro, se formaram os povoados, como Araricá e Campo Vicente.
Nesta época também surgiria o nome que daria origem à atual denominação do município. Havia abundância na região de uma fruta chamada araçá-pyranga (termo indígena para a fruta araçá de cor vermelha), denominação que originaria o nome do município de Sapiranga (Sapyranga, no início), em uma corruptela dos moradores que acabariam pronunciandoa fruta como "a-ça-piranga". Esta fruta ainda existe em quantidade significativa nos capões do Kraemer-Eck. A denominação de Sapyranga, inclusive, segundo historiadores, teria surgido pela primeira vez nessa região.

ENERGIA ELÉTRICA
O desenvolvimento recebe impulso com a eletrificação da vila em 1935. A economia se diversifica: 76 casas comerciais, 148 estabelecimentos industriais , destacando-se indústrias de calçados, de sombrinhas, massas, sabão, atafonas , carimbos, metalúrgicas, móveis, aguardentes, vinhos, alfaiataria. Na década de 1940, ocorre um desenvolvimento maior na indústria de madeira e de calçados. No ano de 1946, começa a funcionar a primeira linha de ônibus pertencente a Braum e Cia, em um novo impulso nos transportes da região e a migração das estradas férreas para estradas de veículos automotores.

MOVIMENTO EMANCIPACIONISTA
Em 1933, a partir do surgimento de novas fábricas, houve a ampliação do mercado de trabalho sapiranguense. Com isso, a população triplicou. Esses e vários outros motivos contribuíram para o crescimento da idéia de emancipação. As lideranças partiram para passos concretos, através da criação de uma Comissão de Emancipação. Também foi criado um Conselho Deliberativo composto de todos os presidentes de partidos políticos da região. Em 1948 se tem efetivamente início o movimento emancipacionista, buscando a independência política e econômica de Sapiranga através do desmembramento de São Leopoldo. O número de habitantes ainda era insuficiente (inferior a 12 mil) para se emancipar. Então, a organização apelou aos habitantes dos distritos de Picada Hartz e Campo Vicente (pertencentes a Taquara). Assim, com essa união, Sapiranga cumpria com todas as exigências previstas em lei para se emancipar.
Em 1953 , após intensa campanha, na qual foram visitados todos os quadrantes da região que formaria o novo município, promovendo-se  festas populares, discursos, panfletos bilingües (em português e alemão, já que era forte a colonização alemã na região e muitos só falavam o idioma germânico), realiza-se um plebiscito, no qual se impõe a vontade popular pela emancipação. O plebiscito ocorreu em 20 de dezembro de 1953, sendo a proporção de votos de quase 5 por 1 a favor da emancipação. Seguindo-se todos os trâmites necessários para a época, um ano depois, pela Lei estadual n.º 2.529, de 15 de dezembro de 1954, é criado o Município de Sapiranga, ocorrendo a instalação a 28 de fevereiro de 1955, data na qual é oficialmente festejado o aniversário da cidade.
A primeira eleição, para prefeito, vice-prefeito e vereadores, realizou-se no dia 20 de fevereiro de 1955. O primeiro prefeito de Sapiranga foi Edwin Kuwer, compondo-se a 1.ª Câmara Municipal de Vereadores com Manoel Baillet Candemil, Adolfo Evaldo Lindenmeyer, Anita Wingert, Arthur Petry, Bertholdo Hauser, Armindo Schwarz e Leopoldo Sefrin. A posse dos vereadores ocorreu em 26 de fevereiro de 1955 e a posse do prefeito e vice ocorreu em 28 de fevereiro do mesmo ano.
Pela Lei municipal n.º 34, de 29 de julho de 1955, são criados os distritos Campo Vicente e Picada Hartz, anexados ao município de Sapiranga.

AS MUDANÇAS E O HOJE
Em divisão territorial datada de 1.º de Julho de 1960, o município é constituído de 4 distritos: Sapiranga, Araricá, Campo Vicente e Picada Hartz, assim permanecendo em divisão territorial datada de 1.º de janeiro de 1979. Pela lei estadual n.º 8.429, de 2 de dezembro de 1987, desmembram-se do município de Sapiranga os distritos de Picada Hartz e Campo Vicente para formar o município de Nova Hartz. Em 28 de dezembro de 1995, desmembra-se o distrito de Araricá, não ocorrendo mais mudanças na geografia sapiranguense.
Desde sua emancipação, Sapiranga é uma das cidades que mais cresce no Vale do Sinos, sendo a sexta mais populosa desta região, só atrás de Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul e Esteio. Sapiranga é hoje a 11.ª mais populosa entre as 34 cidades que formam a região metropolitana de Porto Alegre. Além de se destacar como a Cidade das Rosas (tendo a Festa das Rosas como um dos eventos mais tradicionais do Estado) e do Voo Livre (com destaque ao Morro Ferrabraz que se ergue como cartão postal da cidade), sua indústria calçadista tem papel de grande importância na economia da região.Apostando na força de sua gente retratada no próprio hino municipal ("gente capaz, que desperta bem cedo, constrói Sapiranga"), o município de Sapiranga projeta um futuro de crescimento em uma terra marcada por lutas, desafios e conquistas.

* Texto baseado em pesquisa de informações obtidas junto ao IBGE e no trabalho da historiadora e professora Dóris Fernandes Magalhães e também nos livros Jacobina Maurer de Elma Sant´Ana e A História de Sapiranga de Lucio Fleck
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